Marcar a entrada na universidade com as famosas comemorações de boas-vindas é o sonho de todo estudante e, o trote universitário deve ser o momento ideal para fazer com que os calouros se sintam integrados. Mas, quando há excessos, o trote se transforma em um artifício para a crueldade e um perigoso aliado do machismo, do racismo, da homofobia e da violência física ou psíquica.

Sem uma proibição legal federal, as situações de agressão, infelizmente, continuam a se repetir em muitas instituições de ensino superior. Por isso, se você está organizando ou vai participar de um trote, é preciso ter noção do que é, ou não, aceitável. Confira as nossas dicas para transformar essa tradição em um momento inesquecível, de forma positiva e jamais ultrapassar os limites estabelecidos pelo bom senso!

Lembre-se de exemplos que não devem ser seguidos

Atitudes nada louváveis ainda se repetem em diversas faculdades pelo país como o “leilão de calouras”, diversas formas de agressões, com pessoas amarradas, ou com estudantes sendo obrigados a ingerir bebida alcoólica, e assim por diante.

No Brasil, o mais trágico trote aconteceu em 1999, na Universidade de São Paulo (USP), quando um calouro do curso de Medicina, forçado a entrar em uma piscina sem saber nadar, morreu afogado. Após 15 anos, o Supremo Tribunal Federal, STF, inocentou por falta de provas os, hoje, médicos Frederico Carlos Jaña Neto (Ortopedista), Ari de Azevedo Marques Neto (Cirurgião Plástico), Guilherme Novita Garcia (Ginecologista) e Luís Eduardo Passarelli Tirico (Traumatologista). 

A tragédia ocasionou, na época, a criação da lei estadual nº 10.454 proibindo o trote sob coação e qualquer forma de constrangimento em escolas e faculdades do estado. Mesmo com a lei estadual em vigor, em 2009, um calouro de Medicina Veterinária, da Anhanguera Educacional, da cidade de Leme – SP, foi chicoteado e obrigado a rolar sobre fezes de animais o que o fez desistir do curso. Em 2015, na Faculdade Adamantinense Integrada, em Adamantina – SP, veteranos jogaram ácido nos estudantes recém-chegados, comprometendo a córnea de um calouro de Engenharia Ambiental.

Trate a integração como objetivo principal

Se você for um veterano que estiver na organização do trote universitário, trate-o com o objetivo específico dele: conhecer pessoas, integrar os estudantes novatos com os que já estão na faculdade e, principalmente, se divertir.

O ideal é escolher colegas que compartilhem dessa visão para ajudar na organização. Pessoas que têm como objetivo principal humilhar e agredir outras devem ficar de fora deste planejamento.

Tenha bom senso

Nem sempre, o que soa como uma brincadeira para uns terá o mesmo efeito para outros. Por exemplo, muitos meninos não veem nenhum problema em raspar a cabeça, já para outros perder o cabelo pode ser um pesadelo. É preciso saber respeitar o espaço do outro e utilizar o bom senso para entender se uma pessoa está confortável, ou não, em determinada situação.

Durante a brincadeira talvez seja difícil identificar esse limite, por isso o melhor caminho é promover atividades mais leves, como: pintar o rosto, pedir dinheiro no semáforo, fazer coreografias ou atividades engraçadas pelo campus. E, mesmo nessas situações, é importante que o calouro deseje participar e jamais seja coagido a isso.

Invista no trote solidário

Uma excelente alternativa para tornar o trote universitário um momento de integração é promover a solidariedade. Ao invés da violência e humilhação, os novos estudantes podem realizar atividades que tragam benefícios para a sociedade, como doar sangue, ser voluntário, plantar árvores ou arrecadar alimentos para famílias carentes.

Mesmo não sendo uma prática tradicional esse tipo de trote é uma maneira de incentivar a humanização nas instituições, que pode, inclusive, render prêmios aos participantes. Desde 1999, a Fundação Educar Dpaschoal recompensa as melhores práticas e iniciativas sociais nas universidades.

Muitas instituições e cursos tradicionais, como a Faculdade de Medicina da Universidade São Paulo (USP) e a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) já investem na iniciativa. Já outras instituições organizam um trote com posicionamento mais acadêmico, com oficinas e atividades para que os “bixos” conheçam a universidade, os professores e os novos colegas.

“Não” é não

Se, durante o trote universitário, o estudante não quiser raspar o cabelo, pintar o rosto, cortar a roupa ou não se sente à vontade para se submeter a qualquer uma das brincadeiras, nada melhor que respeitá-lo. Tenha em mente que não é preciso impor a alguém qualquer tipo de humilhação para aceita-lo e que ignorar os desejos dos outros poderá gerar problemas no decorrer da graduação.

Mesmo sendo novato, aquele espaço também é dele e ele não será visto como alguém inferior por não fazer algo que considere desconfortável. Será conhecido como uma pessoa que conhece a si mesma e sabe se impor.

Denuncie situações abusivas

Se você presenciou um comportamento violento ou qualquer situação vexatória, durante o trote, denuncie à reitoria ou à coordenação da universidade. E, se o caso for mais grave, recorra à justiça. O calouro também tem voz e ela precisa ser ouvida.

Mesmo sem uma lei federal que puna os exageros nos trotes, as pessoas que se sentirem prejudicadas pelas “brincadeiras” podem fazer denúncias por danos morais, lesão corporal, constrangimento ilegal ou ameaça, que são passíveis das penalidades previstas no Código Penal.

Algumas universidades proíbem o trote e são muito rigorosas quanto às punições. Você pode conversar com o coordenador para entender o posicionamento da instituição em que está estudando e pesquisar sobre o histórico de trotes nela. Se não se sentir seguro ou confortável, o melhor é ficar de fora.

O trote é um dos primeiros contatos do estudante com o dia a dia na universidade, então, é importante evitar que essa experiência gere momentos ruins ou atrapalhe o seu desempenho. Se algo não parece certo para você, diga não, e se for necessário, denuncie. No mais, aproveite a experiência. A graduação é um momento único e uma oportunidade de conhecer pessoas que podem ser seus amigos pelo resto da vida.

E você, está ansioso pelo trote universitário? Já soube de alguma situação abusiva durante essas ocasiões? Compartilhe a sua experiência nos comentários!